Em junho, o Research do BTG Pactual tomou uma decisão que pode parecer contraintuitiva à primeira vista: em vez de ampliar posições aproveitando as quedas recentes em alguns ativos, a equipe de Macro Strategy optou por reduzir o risco das carteiras. Os acontecimentos desta semana confirmaram que a cautela fazia sentido.

O ponto de partida foi uma leitura objetiva do ambiente que se formou ao longo de maio. Três vetores de pressão inflacionária convergiram de forma simultânea, tornando o quadro macro consideravelmente mais adverso. O primeiro é o avanço no preço de fertilizantes, que acumulou alta de aproximadamente 57% no ano até maio, segundo o Research do BTG Pactual, encarecendo diretamente o custo de produção de alimentos no país. O segundo é o reflexo tardio do choque no petróleo ocorrido no primeiro trimestre de 2026, que ainda se propaga nos custos de frete e transporte. O terceiro — e talvez o mais preocupante por seu caráter prolongado — é o risco de um episódio de "Super El Niño" no segundo semestre, fenômeno climático que tende a manter os preços de alimentos pressionados por período mais longo.

Em um cenário normal, esses choques de oferta seriam parcialmente compensados pela desaceleração dos preços de serviços, que costumam responder com mais sensibilidade ao nível de juros elevados. Mas a economia brasileira não está desacelerando como o esperado. Segundo o BTG, a atividade doméstica no primeiro trimestre de 2026 surpreendeu positivamente, o mercado de trabalho segue aquecido — com desemprego em queda — e os salários reais continuam em patamar elevado. O Relatório Focus de 22 de junho já mostrava a projeção de IPCA (índice oficial de inflação) para 2026 subindo consecutivamente nas últimas quatro semanas, chegando a 5,33% ao ano — alta em relação aos 5,09% de apenas três semanas antes.

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A decisão do Copom e o que ela revelou

Na semana passada, o Comitê de Política Monetária (Copom) — o colegiado do Banco Central responsável por definir a taxa básica de juros — reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, levando-a para 14,25% ao ano. A decisão em si estava dentro do esperado. O que chamou atenção foi o tom do comunicado: mais cauteloso do que o mercado antecipava, mas também com elementos que deixaram a porta entreaberta para novos ajustes.

Na avaliação do BTG Pactual, a reunião de junho elevou a barra para a continuidade do ciclo de cortes. O Copom deixou de sinalizar, de forma clara, que novas reduções seriam o caminho mais provável.

Research BTG Pactual — Asset Strategy, junho 2026

Diante desse quadro, o BTG atualizou sua projeção para a Selic: a expectativa agora é de que a taxa básica de juros encerre 2026 em 14,25% ao ano — o mesmo patamar atual, sem novas reduções no horizonte próximo. Trata-se de uma revisão relevante em relação à projeção anterior e reflete a combinação de atividade resiliente, inflação resistente e incerteza sobre o próximo passo do Banco Central.

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O cenário internacional também pressiona

A cautela do BTG não é isolada do que acontece no exterior. Nos Estados Unidos, o Federal Reserve — o banco central americano — também manteve sua taxa de juros sem alteração na semana passada, mas em reunião que, segundo o Research do BTG, esteve "longe de uma pausa tradicional". A leitura correta, na avaliação da equipe, é a de um "hawkish hold" — ou seja, uma pausa acompanhada de sinalização clara de desconforto com a inflação ainda acima da meta e de disposição para discutir novas altas se necessário.

Essa postura limita o espaço para que economias emergentes, como o Brasil, adotem políticas monetárias mais frouxas sem penalizar suas moedas e seus ativos. O BTG mantém projeção de PCE (o principal índice de inflação americano) acima de 3,45% ao final do ano — nível que, se confirmado, reforçaria ainda mais a postura restritiva do Fed com impacto direto no apetite global a risco.

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O que os ajustes nas carteiras revelam

É dentro desse diagnóstico — pressão inflacionária doméstica, Copom mais cauteloso e Fed restritivo — que os movimentos feitos pelo BTG nas carteiras ganham sentido completo. O Research reduziu a exposição a títulos de taxa prefixada — aqueles que travam uma remuneração fixa no momento da aplicação. Mesmo com prêmios que seguem atrativos no longo prazo, o BTG entende que o risco de a inflação corroer parte dos ganhos no curto prazo reduz a atratividade tática dessa classe neste momento. A abertura da curva longa de juros após a decisão do Copom ilustra exatamente esse risco: quem estava posicionado em títulos longos prefixados sentiu o portfólio depreciar mesmo sem piora nos fundamentos de longo prazo.

Em paralelo, os instrumentos pós-fixados — aqueles que acompanham a taxa de juros de curto prazo — voltaram a ter peso relevante nas carteiras, dado que a Selic deverá se manter em patamares elevados por mais tempo do que se estimava. Para os títulos atrelados à inflação, o BTG manteve a preferência estrutural pelos vencimentos mais longos, onde enxerga prêmios de risco relevantes a capturar. Mas reduziu o prazo médio das posições — o que o mercado chama de "duration" (prazo médio de um investimento em renda fixa) — de 7,4 para 6,3 anos na carteira balanceada, como ajuste tático de cautela.

Na renda variável, o BTG manteve posicionamento neutro na bolsa, sem ampliar nem reduzir a exposição. Mas eliminou completamente as posições em empresas de menor capitalização — as chamadas "small caps" — em todos os perfis de carteira. Os dados desta semana confirmaram essa cautela: o índice de small caps acumulava queda de 6,3% apenas em junho, consideravelmente abaixo do Ibovespa geral no período. A razão é direta: em ambiente de juros elevados e Banco Central mais restritivo, empresas mais alavancadas financeiramente sofrem de forma desproporcional, e as companhias menores costumam se enquadrar nesse perfil.

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A lição de portfólio por trás do movimento

O que o relatório do BTG deixa claro — e os eventos desta semana reforçam — é que essa não é uma virada de posicionamento estrutural. O Research ainda enxerga prêmios de risco atrativos em prazos mais longos e afirma ver "grandes prêmios de risco a serem capturados" no horizonte. Trata-se de um ajuste tático: reduzir a volatilidade das carteiras em um momento em que múltiplas incertezas — inflacionárias, eleitorais e do cenário externo — convergem ao mesmo tempo.

Para o investidor Private, a lição prática desse movimento não está nos ajustes de classe específicos, mas na disciplina por trás deles: saber reconhecer quando o ambiente exige prudência, mesmo que os prêmios de longo prazo continuem visíveis no horizonte. Gerir bem um portfólio, na perspectiva do Research do BTG Pactual, inclui saber reduzir o risco antes que ele se materialize — e não depois que o estrago já está feito.

Aviso Legal
Este conteúdo é informativo e baseado em análises do Research BTG Pactual (Asset Strategy, junho de 2026, e Spoiler Macro de 22 de junho de 2026). Não constitui recomendação de investimento. Consulte seu assessor para orientações adequadas ao seu perfil.